As cobras andam a roubar asas

Deus não dá asas para cobras, era o que pensava ao sair da loja de aquários, ao ver aquele bisonho camarada, horrível até, peitar o dono marombado. Não se intimidar e não ficar se escondendo atrás de direitos disso ou daquilo, só fazendo valer o direito de exigir que se cumpra o prometido, nada mais. E na hora do vamos ver, foi visto. “Se fosse um sujeito normal, eu pagava uma cerveja fácil, fácil”.

 

Franziu a testa e em seguida chacoalhou a cabeça, tentando afastar a imagem que lhe viera de súbito, a de seu ex-namorado, um desses erros inexplicáveis que se nos acometem vez ou outra. Era advogado, mestre em algo sem pé e nem cabeça, procurando um doutorado ainda mais infame, assuntos totalmente desvinculados do que ele mesmo vivia em seu dia a dia. “Como se uma merda de título pudesse mesmo tirá-lo da mediocridade…”. A coisa durara pouco, embora até fosse muito se se considera que nem deveria ter começado como era a opinião geral dos mais chegados. Ao menos terminou com estilo: sabendo que o moleque bebum havia se engraçado com uma conhecida sua numa festa qualquer, foi até a faculdade onde dava aula, esperou-o sair, dirigiu-se seca até ele e meteu-lhe um tremendo upper de esquerda: “esse é por ter mexido com minha amiga”, seguido de outro: “esse é por ser burro e não se tocar que eu sempre vou poder arrumar coisa melhor que você, mas você jamais vai arranjar nada nem parecido comigo”, enquanto o imbecil tentava se levantar, ela catou seu notebook e o arremessou dentro duma fonte. E a besta que o tempo todo tentava se impor a todos sacando sua condição de advogado, não lhe mandou sequer uma singela notificação, nada de nada, nem uma mirabolante ação de reparação de danos morais ou o diabo que fosse, nada. Ali, já fazia treze dias, dum total de quinze, que estava incomodada, como se estivesse calçando um sapato dois números menor e ainda por cima sem combinar com nada que usasse.

 

Deve ter doído, nele. Era alta, esbelta, mas forte, Braços longos, um movimento rápido deles certamente colocaria bastante força nos punhos.

 

– Conhecer gente diferente a puta que pariu…disse à amiga no dia seguinte ao show, num happy hour.

 

– Gente diferente, foi isso que eu disse quando te convidei, gente, você se meteu com um advogado…

 

– A merda da cachaça…

 

– Tá, foi ela que enfiou tua língua na garganta dele…

 

“De certo modo”, mas a outra apresentara um ponto definitivo, sem dúvida: de todo modo fora sua escolha, ou escolhas. E também as omissões. Um pouco de inconseqüência. E mais toda a merda que normalmente acontece com uma mulher emputecida com a vida em geral e com alguém em particular numa festa com muita bebida e sem conhecidos por perto. “Eu lá tenho culpa por gostar de pinto, merda?”

 

 

 

 

Uma resposta para As cobras andam a roubar asas

  1. […] Prá dia ruim, noite de passados – parte 1 de 8 (anteriormente: a estranha face da bizarrice, as cobras andam a roubas asas) […]

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