As cobras andam a roubar asas – parte 3

– Cadê a Dona Kátia?

 

– Lisa! – Outro agudo. A repreensão agora era ao fato de que Kátia, no caso, era a faxineira, diarista, que se chamava Catiussia e, como voltava e meia chegava cheirando a bebida, fora apelidada pelas empregadoras de Katiáça. – Se ela ouve…

 

– Até onde eu sei, é o nome dela. Cadê?

 

– Foi buscar um pouco de sal por aí, no prédio…

 

– Quando ela chegar peça para ela jogar fora. Pressão alta e pressão baixa possuem sintomas em comum, ela vai acabar matando o infeliz. E peça também para ela me procurar, preciso mostrar uma coisinha.

 

Não era exatamente fã desse seu tom professoral, mas com aquelas pessoas sempre se via obrigada a agir assim. Gente inteligente e capaz até, mas que parecia simplesmente ter acabado de entrar na adolescência, sem maiores perspectivas de sair. “Deve ser um desses saltos evolutivos, agora a adolescência humana vai dos onze aos quarenta e cinco…”.

 

Foi se dirigindo à sua sala, a única do escritório aliás, porque a sócia achava mais negócio “estar integrada” ao resto. De seu lado, preferia jamais discutir valores na frente de estagiários e office-boys. Sem falar nas ligações pessoais. Bom, até aí, o povo todo as recebia e falava normalmente. Teve até uma estagiária que discutia o problema hereditário de hemorróidas com a mãe. Fora o viadinho desmaiado que adorava elogiar seus milhares de parceiros, fazendo menção explícita à anotomia dos mesmos o tempo todo, sempre em tom elogioso, o que a fez suspeitar que ele ou conhecera uma turma de atores pornô ou mentia descaradamente para se engrandecer no escritório. “Como se ser biscate fosse exatamente uma vantagem…”.

 

– Mas você vai deixar o coitado aí? Lisa! – Novo agudo.

 

– Mestra, meu diploma não é de medicina e quem tem descendência indígena aqui é você. – Mestra era outro apelido da sócia, conhecido dos demais, mas que também fazia referência a estranhos hábitos do passado, que em verdade nunca sumiram, apenas amainaram por esses dias. Eles tinham uma noção do que queria dizer, mas nem sonhavam com a intensidade. Se tratava da sua incomparável capacidade de conseguir novos homens em qualquer lugar, em minutos, fosse qual fosse a ocasião, de velórios a casamentos. Aliás, ela tinha no currículo três noivos nos dias dos seus casamentos.

 

– Mas você tá uma égua hoje, hein?

 

Não respondeu, tomou seu rumo. Relinchando.

 

– Grossa – soltou baixinho o outro estagiário. Mas ela ouvira e só se incomodava com o fato de os estagiários serem todos gays. Inclusive as mulheres. “Por que não casam entre si? Ele faz papel dela e ela dele, uns implantes, umas cirurgias deixariam tudo melhor ainda…”.

 

 

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