As cobras andam a roubar asas – parte 2

Fosse como fosse, a coisa agora era passado. O que a colocava no exato ponto de antes: emputecida com a vida em geral e com alguém em particular, só que agora sem festa e sem bebida. “La nave va, ou algo do gênero…”.

 

Chegando ao belíssimo escritório, mais problemas: o estagiário acabara de desmaiar por ter tomado um choque ao ligar o computador na tomada. Pior, jogou a caneca cheia de leite de soja para o alto, atingindo na queda todo um trabalho recém-finalizado. “Puta que pariu, por que diabos eu não fiz engenharia?”

 

– Que beleza, desmaiou de susto, imagina se fosse uma barata…Suponho que já tenham chamado a ambulância…

 

– Hã..bom, a gente – a sua sócia tentava explicar o inexplicável, mas ela não estava muito a fim de perder tempo com urbanidades ou seu inverso. Ignorou a todos e ligou ela mesma para o serviço médico que lhe parecera sempre um excesso de zelo.

 

– Feito, Agora alguém ligue para os pais dele e informem o hospital pra onde ele vai.

 

– Acho que ele não mora com os pais – disse o outro estagiário. “Claro que não, desde quando gays moram com os pais?”

 

– Se for preciso, entrem no Datena ao vivo, mas informem quem quer que seja que o pobre coitado foi parar no hospital. Mas…ninguém ainda tentou re-imprimir o troço?

 

– É que o computador queimou com o curto…

 

– Não tem problema, vamos refazer à mão.

 

Demorou até que alguém tornasse a fechar a boca para daí dizer algo.

 

– À mão? Como?

 

– Lisa, você ta doida?

 

– Como vocês acham que era feito antigamente? Vamos lá meu povo, as instruções tão anotadas na tua agenda, Free. – Era um apelido que só soltava em particular com a amiga, tinha a ver com o fato de a sócia, num passado não muito distante, ter extrapolado os limites do razoável em comilanças de ansiedade, menção maldosa à baleia da Disney. Na real, como ela conseguira emagrecer mais de quinze quilos em menos de seis meses, até era um elogio, mas a referência ao passado trágico era sempre coisa pesada. Não havia necessidade de refazer à mão, mas queria ver quanto tempo demoraria para eles descobrirem onde estava salvo o outro arquivo.

 

– Lisa! – A amiga soltou um agudo de dar inveja em qualquer soprano.

 

 

 

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