Conto de Boa Noite – parte 8

 

Eu trago o meio dia. Todos os desejos eu satisfaço, toda maldade liberto, os dois ao mesmo tempo. Faço homens e isso é demais para os humanos. Por isso despedaçam depois. A mediocridade retorna. Mas a essa altura já estou longe.

De há muito se adensa a minha sabedoria como uma nuvem, tornando-se mais lenta e sombria. Assim faz toda a sabedoria que, algum dia, deverá dar à luz raios.

Para esses homens de hoje, não quero ser luz, não quero chamar-me luz. Quero, a esses, cegá-los. Raio da minha sabedoria, fura seus olhos.

A natureza nos mantém vivos, mas em um instante traz-nos a morte.

Tempestades, terremotos, secas, doenças, fragilidades. Somos humanos,  somos natureza. Por isso vivemos e morremos. Por isso damos vida e damos

morte.

Não fomos feitos para o nada. Somos e é tudo, é demais, é muito. Querer que isso seja pouco é rejeitar nossa própria vida, se quereis ser peões, sejais, mas eu sou o rei do meu fogo. Peões só existem para os sacrifício. Não é justo fazer parte de um jogo, é preciso jogá-lo. Para isso, basta ser o que se é. Você é tudo e se nega a isto submetendo-se a outras vontades, caindo dentro do tabuleiro, de jogador a peça e daí a nada.

Dois meses atrás um senhor de oitenta anos chegou até mim. Pediu-me algo, segundo ele, simples para mim, dado o meu passado. Desejava que estuprasse a neta de um seu primo. Anos antes a menina se recusara ao velho. Tentou várias vezes sem sucesso. Caiu em desgraça ao tentar ser violento. Vivia longe de todos agora. Ela, por sorte, não teve seqüelas. Seu desejo era que eu as fornecesse. Neguei-me. A morte é inevitável, mas a vida precisa ser bem vivida, o que pressupõe liberdade. Liberdade que o velho não respeitou, mais, atentou contra a própria identidade da adolescente. Não me era o caso, até porque só faço sofrer quem fez sofrer e nunca deixo sofrimento perpetuar, acabo-o com a morte. Cada dor é um passo que forço à morte.

Sou incapaz de dizer qual minha maior crueldade. Talvez seja não matar os que me procuram ( cada qual que suporte as dores de seu próprio parto. Não mudanças indolores ).

Minha obra-prima, essa posso dá-la ao relato. Não toquei na pessoa. Levei-a para jantar. Uma ótima companhia. Um belo corpo também. Conversamos algumas horas. Descrevi-lhe em detalhes o desespero do amante, o caos em sua casa, as brigas com a esposa, a surra absurda que marcou a filha, todos os problemas com as famílias, o adoecimento da mulher, o suicídio da filha uma semana depois de descobrir a verdade por conta própria, a fuga do filho, os olhares dos vizinhos, a operação da filha anos antes. Neste ponto interrompeu-me. Não entendia onde isto se encaixava e não acreditava que seu rompimento pudesse dar causa a tudo que contei. De fato, não deu. Contei-lhe a verdade que faltava, que não soubera por ter impedido Qualquer contato com ele. Simples, AIDS, os dois. Morreu três horas depois, um acidente de carro, drogada e bêbada com a bebida que paguei. Agonizou horas antes de chegar uma equipe médica. Insuficiente, óbvio. Seu desespero foi doce, gravei-o para deleite do ex-amante. Suicidou-se um mês depois.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: