Conto de Boa Noite – parte 5

Da boca do padre proliferavam sermões contra a violência e a vingança e clamava por justiça, muito embora suas mãos continuassem a receber donativos dos dois coronéis. Mas a população dividida começou a colocar Deus a seu lado. Ou seja, cada partidário estava convicto de que o outro lado era injusto e provocador. Os homens de coração simples e mente atrofiada, dependentes dos dois inimigos, confundiram tudo e, mais uma vez, o povo aliou-se aos seus algozes. As brigas aumentaram. Bares tornaram-se comícios, quartéis às vezes. Ninguém mais se olhava, nem os

amigos. O medo era geral.

Numa noite de chuva houve um pequeno tiroteio entre três homens, em frente à farmácia. Morreram cinco pessoas. Os três homens e uma grávida que comprava remédios. Era a comadre do meu empregador.

O amor dos populares, daqueles que simpatizavam com meu empregador, impediu este de perceber que se tratava de uma fatalidade. Sua bondade tornou-se, como de praxe, em raiva incontida. Os outros assustaram-se.

Mas, na mesma noite, uma perseguição à outra filha do dono do empório os colocou novamente em pé de guerra.

Uma senhora morreu. Não resistiu à tensão. Ninguém pensou nisto.

Enterraram-na sem velório, porque não eram seguros esses ajuntamentos.

Em uma semana seis mortos.

Nisso quinze dias se passaram, desde a morte do filho do inimigo.

Fui incumbido da represália à morte da comadre. Só faltava uma desculpa qualquer. Esta veio logo. O dono do empório não vendia nada, pago ou fiado, para os trabalhadores da fazenda inimiga. Mais, atirou num dos peões de meu empregador, mas não matou. Não importava. Era a minha deixa.

Entrei em sua casa, espanquei mulher e filha, balei-o e o carreguei para o campo. Surrei-o e enfiei seu rosto num formigueiro, desses enormes. Com o cabo da espingarda impedi que saísse dali. O tiro na perna também dificultava. Antes de ir embora fiz meu cavalo pisotear seu abdômen. Foi encontrado pela manhã, quase cem metros longe dali. Sabia que estava vivo quando parti. Estava irreconhecível por causa dos quarenta minutos de ataque das saúvas. Exatos quarenta minutos, porque em dado momento pareceu-me melhor deixá-lo sob uma pedra. As formigas avançavam-me. Foi isso.

Outra semana passou. Cinco mortos. Todos do meu lado, que não era meu lado, mas era meu lado.

Um só do inimigo matou-os todos. Um a cada dia, respeitando o Domingo. Fizeram um ataque à sua casa. Não havia ninguém. Decepção geral. Fugira que bobo não era. Tiveram notícias dele. Confirmaram. Mataram-no, claro. Mataram mais três trabalhadores, conhecidos meus. Estavam armados, o que a essa altura já era provocação suficiente.

Inimaginável supor medo, precaução. Ninguém pensava mais em nada. Tudo se resumia a reagir. Todos estavam submetidos aos instintos. Qualquer movimento estranho dava margem a um recuo ou, pior, a um contra-ataque.

Pedi mais uma vez para ir embora. Não havia como. Conversei horas com meu empregador. Expliquei-lhe que aquilo não terminaria. Não acabaria nem bem mal, continuaria até quando houvesse gente ligada aos dois lados. Não arrefeceu. A insensatez continuaria.

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