Conto de Boa Noite – parte 4

No dia seguinte a população estava apavorada. Quem pôde, ficou em casa. As ruas ganharam um aspecto fúnebre, graças à carranca dos jagunços do inimigo, mas sobre tudo por conta do medo dos populares, que os forçava a andar sempre de cabeça baixa, queixo no peito, olhar na ponta dos pés. O sol a pino sobre a terra molhada da chuva da noite anterior produzia um mormaço indecente. Já limpo, achei por bem ir à cidade. Não podia sumir, apesar de poucos ali me conhecerem, porque se dessem por minha falta poderiam ir em meu encalço e meu passado falaria mais alto que meus álibis. Comprei um chapéu e um pouco de café. Podia voltar tranqüilo, porque agora não haveriam de estranhar uma ausência minha. Era um recluso. Essa era minha ida normal ali.

Senti o ódio do dono do empório, fiel aliado do inimigo. Sua filha era casada com o filho do principal homem daquela fazenda, afora o proprietário. Disse que a “vadia não era motivo práquilo”. Respondi, como bom empregado, que pelo menos na fazenda sempre fora pessoa direita. Olhou-me torto, como se era de esperar.

Na volta um matuto acompanhou-me até certa altura. Cada qual no seu cavalo. Cavalos parecidos, aliás. Achava aquilo um despropósito, mas concordava que o outro bem merecia uma sova ou um tiro. Separamo-nos, segui reto, ele entrou numa estrada à direita, logo à frente era sua chácara, um dos últimos pedaços de terra que não pertencia ao meu empregador.

Minutos depois encontrei o pivô de toda carnificina. Era um senhor de alta idade, mui querido por todos na fazenda. Estava caído, seu cavalo pastava um pouco longe, todo ensangüentado. Parei. Olhei bem. Seu peito havia sido estraçalhado, tantos tiros havia levado. Tiros à queima roupa. A situação era clara. Segui seu rumo, alcançaram-no, provocaram-no, defendeu apaixonadamente seu patrão, ofendeu alguém deles, foi morto.

Pensei em deixar a notícia chegar por outro. Mas não adiantava, quando chegasse estaria deflagrada a guerra. Era um velho muito amado realmente. Parceiro de toda hora do patrão.

O pavor aumentou. A cidade tornou-se bicolor. Vizinhos brigaram. A polícia não saía às ruas. Não podia, estava dividida. Opção de bom senso.

Quis ir embora. Pedi muito. Inútil. Deram-me nova tarefa. Matar um homem que espancara um roceiro da fazenda.

Esse, furei-lhe os olhos com caco de vidro. Deitado no chão, retorcendo-se, esperei que virasse de barriga para cima. Virou-se e pulei em seu peito com os dois pés. Repeti a operação cinco vezes. Seu coração foi perfurado pelas próprias costelas.

Nisso, dois peões morreram baleados. Sabiam quem eram os jagunços. Sabiam onde moravam. Sabiam que tinham família.

Colocaram fogo nas duas casas.

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