Conto de Boa Noite – parte 1

Oi, você não me conhece, ainda.

Meu nome é Rafael, mas poderia ser qualquer outro. Nome, claro, falso, mas isto realmente não importa. Soube que gosta dele daí a escolha.

Esta não é uma carta de amor a você.

É uma carta de amor à vida. Minha vida, evidente, porque a sua só foi importante até hoje e por sua causa, sua culpa, sua máxima culpa.

É noite, falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também minha alma é uma fonte borbulhante.

É noite. Somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é canto de alguém que ama.

Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz. Um

anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor.

É isso ignara, vou falar ao mundo todo através de ti. Um recado, belo, contundente, agressivo, angustiante, como o resultado de uma eleição fraudada sem crime.

Mas antes que largue isto, ganharei tua confiança, dando o que você tanto quer, quase nunca tem e presenteia ao acaso, ou seja, ao sabor de sua vontade inconsciente, a única verdadeira, ressalte-se.

Serei, pois, sincero.

Sou, civilmente, socialmente, talvez até moralmente (pelo menos por sua moral menor, utilitária e externa a ti mesma), um criminoso.

Mato pessoas.

Roubo pessoas.

Mas, creia, res societate, nunca menti. Oculto-me, como vê, mas não minto.

Confio que meu primeiro assassinato interessar-te-á.

Qual foi?

O óbvio, meus pais.

Como?

Outra vez óbvio. Instintivamente.

Nunca responderam a uma minha pergunta. Asseguro, nenhuma. Maltratos mil.

Rebelei-me quando apanhei monstruosamente de ambos. Sim, os dois ao mesmo tempo. Mas, diziam naquela época, em seu direito de pais. Dum de reio, doutro de ripa fina, a qual se quebrou algumas vezes. Caí certa hora. Fui erguido violentamente, dei com a cabeça no lampião. Jogaram-me na mesa. Fui surrado deitado. Maquinalmente virei-me e empunhando uma faca, girando os braços em desespero. Cortei-lhes em segundos, tão próximos estavam as gargantas. Não chorei, não fugi. Coloquei fogo na casa. Salvou-se só o que peguei. Fui embora.

Aí comecei a amar a vida. Como bom católico, ironia, perceba-a, amava muito mais a minha que a de outro. Mas, religiosos são egoístas, não entendem nada da vida, a verdadeira vida, quero dizer. Aquele fenômeno irreproduzível e incontrolável, por isso mesmo belo. Por causa desse egoísmo só pude reforçar meu intelecto no seminário. Aquela doutrina humanista me era intragável. Liberdade por submissão é comida para desesperados. Nada de humanidade, irmandade, sociedade, valho muito mais que isso. Você também valia. Como o verbo está no passado, irá morrer sem saber porquê. Nem por acaso, nem por vontade própria. Por uma outra vontade. Lamentável.

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