SENILIDADE PRECOCE


Em relação aos idosos, os jovens ganham mal, prestam pouca atenção, têm menos tempo para gastar, portanto, são consumidores piores, mas mesmo assim o mercado ignora solenemente a velharada, especialmente a mídia. Das duas, uma, ou os dirigentes de tv´s, rádios e agências de publicidade são estúpidos ou estão entupidos de alguma ideologia besta que prega que a velhice merece o desprezo.


É só pensar um tiquinho. Déficit da previdência. Por que existe um? Grosso modo, porque o montante de contribuições atuais e futuras não faz frente ao montante de benefícios atuais e futuros. Em outros termos: porque há mais gente ficando velha do que gente entrando no mercado de trabalho contributivo. Se há tantos velhos assim, por que tão pouco se mira neles?


Jovens, em sua maioria, perdem tempo demais com escola, esportes, sexo e vadiagem. Na real, assistem muito menos TV do que os mais velhos. Eles vêem televisão, ouvem rádio e vão ao cinema com seus celulares e ipod´s ligados, fazem várias coisas ao mesmo tempo. Talvez isto explique a diminuição progressiva da profundidade dos roteiros: facilita a vida de quem está disperso. Já os velhos prestam atenção, de modo que são um publico mais qualificado para qualquer programa, inclusive comerciais.


Esqueça a imagem do velhinho na praça, ganhando salário mínimo de aposentadoria. Isso é bobagem. Eles ganham tão bem ou mais que os jovens que entram agora ano mercado de trabalho. A quantidade de solteirões na casa dos 50 e 60 é provavelmente superior à de jovens mal remunerados realmente solteiros e sem compromissos com esposas, namoradas e filhos, dentro ou fora do casamento. Sem falar que não precisam pagar ônibus na maioria das grandes cidades, nem faculdade ou cursinho. Para cada entrave a se ver um velho como grande consumidor há um ou mais em desfavor do jovem de mesma renda.


Pior, o número de velhos só cresce, mas o de jovens não acompanha. O futuro, quer gostemos ou não, é dos velhos. Pode até ser maluquice que o Brasil só tenha um presidente com menos de 50 na sua história, mas loucura mesmo é o mercado não se tocar do absurdo potencial que os velhos representam.


Há programas infantis, adolescentes e adultos, mas não há um só programa realmente voltado para os velhos. As novelas, eventualmente, tangencialmente tentam mostrar que a vida não acaba com a velhice. Arrematada bobagem, todos sabem que a velhice é para sempre. O que sucede é que a velhice vem se tornando a mais longa das fases da vida, cada vez mais. Mas que filme foi produzido mirando especificamente o público velho? Novela? Programa de rádio?


Não é que os velhos não sejam uma parcela razoável do mercado. São, claro que são, os números estão aí para quem deles quiser tomar conhecimento. O caso mesmo é outro. Os profissionais da mídia enfiaram na cabeça que a velhice é feia. Pode ser, em comparação ao físico dos jovens. Mas, francamente, a maioria dos adolescentes nada tem a ver com Megan Fox, são seres esquisitos, desengonçados, atrapalhados, com vozes ridículas e um temperamento insuportável.


Sim, sexo vende. Inclusive para os velhos. Ok, talvez não venda tanto para as velhas, mas os velhinhos ainda se deixam seduzir por uns rabos de saia ou, preferencialmente, uns rabos sem saia. Então, tudo certo usar os jovens na publicidade, o que é difícil entender é não usar publicidade para os velhos.


É certo: a morte sempre é um mal negócio e velhos lembram a morte. Sem dúvida. Mas, do mesmo modo que há programas estritamente infantis, por que não há programas estritamente voltados aos mais velhos em horários próprios? Crianças podem convencer os pais a gastarem nisso ou naquilo, mas os velhos não precisam enfrentar esse obstáculo, gastam diretamente.


Ademais, o jovem de hoje é o velho de amanhã. Se há décadas o número de jovens solteiros vem crescendo e ainda mais o número de casais com um ou nenhum filho, é razoável supor que boa parte das pessoas com mais de 50 já não tenham grandes laços ou responsabilidades familiares e, portanto, tenham mais verba livre para gastar.


Esse desprezo teria a ver com o singelo fato de que velhos possuem um senso crítico maior? Jovens, via de regra, decidem de impulso, velhos não o fazem costumeiramente. Pode ser, mas por outro lado, velhos gastam de modo mais qualificado, compram coisas mais caras do que os jovens.


Lentamente, muito lentamente, o público consumidor vem forçando a mídia a dar atenção aos velhos, mas ainda é pouco em termos proporcionais. Seus profissionais ainda não estão preparados para abrir mão da sua ideologia de que a juventude é o futuro. Não é, acordem, o futuro é velho, não jovem. Essa bobagem vem de longa data e, num passado remoto, ganhou força e ares de dogma nos anos 1960. Essa porcaria intelectualmente pueril ainda ressoa nas redações e centros de criação, mas ela, cada vez mais, não tem grande amparo nos fatos. Enfim, em termos puramente mercadológicos, numéricos, o desprezo da mídia para com os mais velhos é insustentável. Só sobra a ideologia velha de guerra. Bem mais velha que seus atuais perpetradores, que talvez nem disso saibam. Objetivamente, o apoio à hegemonia juvenil é uma burrice ímpar.

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